-->

Além da Narrativa…

Como entender a construção de significado em jogos digitais? Para o jogador, a pergunta parece descabível, afinal, o significado se dá durante o jogo. Porém, para os pesquisadores em humanas e ciências sociais, essa pergunta é uma das mais fecundas, podendo se beneficiar de diversas tradições do pensamento, como também dos campos tangentes aos game studies, como Cinema, Comunicação e Estudos Culturais.

Grande parte dos jogos digitais atualmente apresenta algum determinado tipo de estrutura narrativa ou enredo, e este fato influenciou alguns pesquisadores a enfocar este aspecto da geração de significado em games, o que consistiria na tal “narratologia”. Porém, quem são os narratologistas além de uma construção discursiva de alguns pesquisadores em game studies no começo dos anos 2000?

Mas a questão do sentido/significado não se resume à narrativa, e antes de tudo, é necessário lembrar que enquanto a tradição francesa em filosofia e artes sempre privilegiou “sentido”, a contrapartida anglo-saxã concebe a questão em termos de significado. Este fator já é um divisor de águas na definição de rumos possíveis para se pensar em jogos digitais. Tentar trabalhar ao mesmo tempo com as duas tradições é em si um jogo intelectual para uma vida inteira.

Pensar em termos de “significado” nos convida a recorrer aos Estudos Culturais, às leituras semióticas, às metodologias fenomenológicas, como também às teorias pós-estruturalistas. Porém, durante a análise, cada jogo digital desafia o pesquisador a traçar generalizações, afinal, a construção de significado de qualquer elemento, objeto ou experiência em jogos digitais depende de vários fatores.

Um pequeno exemplo: na expansão ‘Beyond the Sword’ do jogo Civilization IV, finalmente foram incluídas no jogo algumas referências lusofônicas (Portugal como nação, língua portuguesa falada pelos soldados do exército português), onde uma das maravilhas do mundo é o Cristo Redentor. Porém, a função do Cristo Redentor (que pode ser construído em qualquer cidade) é eliminar a anarquia. Ao ser construído, aparece na tela do jogador:

cristocivilization

Em primeiro lugar, este fato explica como as simulações dos jogos digitais são ficcionais, como apontado por vários autores. Em segundo lugar, nota-se que além do nome “Cristo Redentor”, este objeto não compartilha nenhuma outra qualidade com o referente carioca. Além do signo, o significado é apenas atribuído pela função designada no jogo (eliminar anarquia). Em terceiro lugar, analisar a função “Cristo Redentor previne a anarquia” influencia a considerar aspectos discursivos do jogo, como em Bogost, que chega a defender que jogos digitais têm ideologias. Em quarto lugar, pensando em termos de práticas culturais e mediações, é de se questionar os processos pelo quais desenvolvedores de jogos digitais atribuem algumas funções lúdicas. Afinal, pelo menos pra mim soa como uma piada de humor negro.

Porém, não só em Civilization existem estátuas imponentes de braços abertos. Em World of Warcraft, na cidade portuária de Booty Bay (Stranglethorn Vale), numa sub-região chamada Janeiro’s Point, o jogador irá encontrar a seguinte estátua:

cristowow2

Se ao ler e interpertar Civilization Beyond the Sword minha reação foi ficar com uma certa sensação amarga ao me deparar com aquele Cristo Redentor, este aqui me fez rir. Qual seria o significado dessa estátua em World of Warcraft? A estátua não tem nenhuma função, a não ser como um objeto no horizonte que caracteriza e ambienta o jogador na zona Stranglethorn Vale, que é uma floresta tropical, com uma cidade portuária montanhosa construida numa baía.

O jogador de World of Warcraft está acostumado a perceber como determinadas zonas e criaturas do mundo Azeroth se assemelham à algumas regiões do mundo real. Mortos-vivos tem sotaque do sul da Inglaterra, são mal humorados (“I haven’t got all day!”), e vivem em regiões de clima temperado e com céu fechado. Darkspear trolls e minotauros têm sotaques latinos e indígenas e vivem em regiões tropicais e ensolaradas como Stranglethorn Vale. Esta construção específica de mundo virtual lúdico convida o jogador a pensar em termos de paródia (muito bem humorada) com o mundo real.

Ao tecer este tipo de análise, me parece que qualquer abordagem mais aproximada da filosofia ou artes é mais fecunda do que estruturar a questão do significado em termos ideológicos ou simplesmente ludológicos.

Em cada jogo digital haverá uma dinâmica específica de referências, funções, e interações com os elementos e objetos. Se em Civilization o Cristo Redentor é um objeto com uma função lúdica atribuída e específica do jogo, em World of Warcraft a estátua é apenas parte da paisagem cumprindo a função de ambientação identitária de lugar. E a pergunta persiste: como entender a questão do significado em jogos digitais?


::  Yara Mitsuishi aprendeu a ler e escrever teoria na FFLCH-USP e foi parar na Concordia University em Montreal, onde desenvolve seu PhD em Comunicação/Filosofia/Game Studies. Trabalha obsessivamente com a noção de simulação - que é o tema central de sua tese -, mas nas horas vagas não perde oportunidade de brincar com a realidade.


4 Comentários »

  1. Não joguei essas versões mais novas de Civil, então nem posso dizer que sentiria algo ao ver o cristo ali com essa função de ‘prevenir anarquia’. Soou como uma piada de humor nigérrimo, inclusive. Remete a assistir filmes e séries de Hollywood e ver o que eles acham/falam do Brasil. Representação midiática em videogames, afinal de contas. Lembro de um trabalho que vi aqui, de um cara que analisava a representacao identitaria tupiniquim nos videogames, partindo de Blanka (SF) e aquele capoeirista de Tekken cujo nome me falta.

    Indo ao ponto, acho que ali há algo mais do que simplesmente paródia, sabe? Acho que essa essência do mundo real presente no mundo virtual de Azeroth pode acabar provocando outras reações que não são necessariamente ‘achar engraçado’. Discutia, outro dia, num artigo, como os blood elves (e os elfos de tolkien) sofrem com a idéia de que eles sao gays. As referencias (nao geograficas, mas a crenças sobre um conjunto de pessoas) estao todas lá. Digita /silly, e o elfo te diz: “dont you wish your girlfriend was hot like me?” – piada, sim, mas de gosto tao ruim – ou pior – que a de Civil.

    comment-bottom
  2. Eu não disse e nem quis generalizar a construção de significados em WoW como simplesmente paródia.

    O que chamo a atenção é o jogo de referências e significados múltiplos levando em conta as especificidades de cada jogo.

    Mas a questão que vc levanta é importante sim, e é tratada por pesquisadores como Michelle White e Lisa Nakamura com fortes influências em queer theory, feminismo e pós-colonialismo.

    comment-bottom
  3. É, sim, sim. E esse eh um segmento que pessoalmente me motiva a pesquisar mundos virtuais. Geralmente, em jogos single player (como silent hill, vagrant, resident evil, you name it), a paisagem diegética é fechada, muitas vezes limitada pelos elementos de gênero, enfim, mais limitada. (nao to dizendo que nao eh possivel explodir isso, nao eh o caso). A construcao de significado eh, de certa forma, previsivel.

    Nos mundos virtuais – em WoW especialmente, que dialoga fortemente com a cultura popular – a liberdade eh muito maior – e a construcao de significado é filtrada (ou influenciada) por uma quantidade absurda de variaveis. Nao previsivel – por exemplo, se em STV você acha engraçado passar em Janeiro’s Point e ver o “cristo”, quando você avança e consegue nivel o suficiente pra entrar em Zul’Gurub (parte nordeste, 20man raid, 60+ players), a temática é outra. Questoes como religiao, escravidao e corrupção são enfocadas nas quests associadas à raid.

    Nao conhecia o trabalho da Lisa Nakamura, valeu pelo toque.

    comment-bottom
  4. Aí é que está! Você como jogador ou leitor, faz essa associação. No meu caso, não vi nada que fosse extraordinário em Zul’Gurub que me chamasse atenção, ou que fosse deslocado das outras tramas em WoW.

    Acho que isso demonstra como é delicada a questão do significado em games.

    comment-bottom

RSS feed for comments on this post. TrackBack URL

Deixe um comentário