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É arte, ou não é arte?

30 March 2009 726 views 4 comentários

Acredito que alguns produtos culturais (fotografia, cinema etc.) já passaram por essa interpelação antes de conseguirem galgar alguns degraus na hierarquia dos objetos humanos. Mesmo instituições artísticas consagradas como o teatro, em algum momento pré-gregolândia tiveram o seu ido de obscuridade. Hoje, porém, ninguém questiona que Hamlet é uma obra de arte.

Seguindo essa lógica, é comum ler sobre os videogames encabeçando o ranking de legitimação no campo das artes: “os jogos eletrônicos representam uma nova forma de arte vívida, tão apropriada para a era digital quanto as mídias anteriores foram para a era das máquinas”[1]. Claro que mesmo sendo uma conjectura do grande connoisseur de medias (corrigindo a tradução precária da folha) do MIT, uma afirmação dessas não desce fácil na goela de qualquer um.

A grande polêmica, neste caso, é que para muitos o videogame nem sequer chegaria à léguas das bordas do campo artístico. Seria algo menor, industrializado (anti-aurático, para usar a terminologia de Walter Benjamin), bem próprio ao consumo rasteiro: isso sem alcançar nem a categoria de kitsch.

Apresentado o problema, reformulo a pergunta: qual o motivo de enquadrar o videogame como arte? Será porque os objetos artísticos “são certas manifestações da atividade humana diante das quais nosso sentimento é admirativo, isto é: nossa cultura possui uma noção que denomina solidamente algumas de suas atividades e as privilegia”[2]?

Entretanto, se essa é a finalidade da questão, não é necessária a justificação do videogame enquanto um dos elementos no campo das artes. Monsieur Mario (o encanador de Shigeru Miyamoto) é cultuado por milhões de pessoas no mundo todo. É um cânone da cultura popular, e em nenhum momento precisou ser exposto numa galeria de arte.

A relação entre videogames e o campo artístico deve ir além destas dicotomias sem propósito.  Se for arte ou não arte, em nada contribui para o avanço da disciplina de estudo dos jogos eletrônicos. Devemos nos concentrar, em outro sentido, nas questões que o campo das artes nos apresenta nessa relação.  Por exemplo, como as estratégias do Game Design causam efeitos de natureza cognitiva, sensória e emocional no jogador? Ou, o que representa o belo e o feio na experiência do Gameplay?

Enfim, esqueçam essa balela de “é arte, ou não é arte”.


[1] JENKINS, Henry. A Arte Emergente. Folha de São Paulo, São Paulo, 14 janeiro, Ilustrada, 2001. p. 2-3

[2] COLI, Jorge. O que é arte. São Paulo: Brasiliense, 2008. p. 8.


>>  Paolo Bruni é doutorando em Comunicação e Culturas Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, educador, produtor cultural, aprendiz de artista e consumidor ávido de cultura nerd: RPG, videogames, ficção científica, gadgets, etc. Atualmente desenvolve pesquisas sobre consoles de videogame intercalando os campos da estética, poética aristotélica, arte digital, performance, interface homem-computador, narratologia e ludologia.


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4 comentários »

  • Thiago Falcao said:

    Eu particularmente adoro essa discussão. Dá status pra os jogos eletrônicos, na verdade. Mostra apropriações que não são tão óbvias. Afinal, se considerarmos como as artes se desenvolveram e como elas se transformaram em bens depois, e fizermos um paralelo com a historia dos jogos eletronicos, podemos ver que as coisas aconteceram um tanto em sentido inverso, né? Acho fantastico ver justamente os jogos eletronicos como produtos da tecnica apropriados pelo contato com o humano.

  • Emmanoel Ferreira said:

    @Paolo,

    Importante questão, e bastante pertinente. E não acho que sua última colocação seja simplesmente uma balela. Aliás, essa questão perpassa o campo da arte e dos objetos culturais há séculos, e não à toa no século XVIII surge um novo ramo da filosofia destinado justamente a buscar compreender esta tal arte: a Estética. Na opinião de muitos autores, o simples fato de um objeto ter algum componente artístico ou ser possuidor de beleza não o torna necessariamente um objeto de arte. Hegel, já no início de sua Estética, faz a diferenciação da beleza encontrada nos objetos criados pelo homem e nos objetos criados pela natureza. Ambos podem possuir beleza, mas apenas os primeiros seriam abarcados pela Estética. A discussão sobre a natureza artística de produções humanas encontrou terreno fertilíssimo para discussão a partir do século XX, sobretudo com as vanguardas modernistas. Duchamps que o diga. Seguindo essa mesma linha, vieram posteriormente as discussões: Design é arte? Uma cadeira na qual me sento no dia-a-dia, por mais bela que seja, pode ser considerada um objeto de arte? Uma capa de livro que, além de seu componente estético, tem a função de informar, é uma obra de arte? Coloco essa questão pois, como designer de formação, a vivi muito na pele. Pessoalmente, fazendo eco a outros inúmeros autores, creio que a arte (como tal), se possui uma função, é apenas a de retirar-nos do cotidiano, de nosso lugar comum, levar-nos à reflexão, à fruição. Fornecer-nos uma experiência – estética. Além disso, qualquer função mais pragmática, na minha opinião, contamina sua natureza.

    Enfim, voltando ao tema central dessa discussão: games podem ser considerados objetos de arte? Na minha opinião: em seu modus operandi “tradicional” não, apesar de possuírem em si componentes artísticos (imagens, músicas); mas sim, dependendo do contexto no qual podem estar inseridos: reapropriações, deslocamentos, etc. Aliás, atualmente, não são poucos os artistas a introduzirem os games (em seus diversos aspectos) em suas obras, como Natalie Bookchin e Feng Mengbo, no mundo, e Suzete Venturelli e Gilbertto Prado, no Brasil, entre outros. Fazendo um paralelo, como Nam June Paik deslocou a TV (dispositivo midiático) para o contexto da arte. Em ambos os casos, o dispositivo (game, TV), não sofreu nenhuma mudança “ontológica”, apenas um deslocamento. Repito: acho importante sim essa questão, pois pode abrir novas possibilidades para o “dispositivo” game, além daquelas já por nós “naturalizadas”.

  • Paolo Bruni (author) said:

    @Emmanoel

    Quando a “balela” me referia ao radicalismo dicotômico desse tipo de questão, seja para qualquer objeto. Não leva a nada, a não ser a léguas de flamewars. Como eu citei acima, para se valorizar um objeto cultural não basta (e não é necessário) categorizá-lo enquanto arte. Vc pode cultuá-lo (como se faz na cultura gamer [sic]) ou estudá-lo (pelo viés da Estética, como vc citou). Ambas as posturas são mais úteis para o campo dos videogames, do que discutir o se “o sexo dos anjos é arte” :P

  • Yupanqui said:

    Essa questão de se jogo eletrônico “é arte ou não” me faz lembrar de outra polêmica, se o conhecimento X (e.g. o criacionismo) “é científico ou não”. Assim como, me parece ser, a natureza da arte, não existe um entendimento muito claro e único da natureza da ciência. O que vejo de mais relevante nessas polêmicas está em perceber o porquê delas surgirem. No caso da ciência, o conhecimento ser ciêntifico acarreta num grande status para este conhecimento perante a nossa sociedade “cientifizada”. O conhecimento científico é de fato muito importante, vem nos proporcinando soluções e entendimentos robustos sobre a natureza. Mas não explica tudo, não soluciona tudo e nem é único! Existem muitas outras formas de conhecimento que são utéis e, por vezes, mais adequadas do que a científica em determinadas situações. Esses conhecimentos “outros”, ao tentarem se cientifizar, acabam por perder seus valores, além de desprederem muita energia descenessariamente nesta fastidiosa e caprichosa tentativa.

    Dessa mesma forma, eu encaro está questão dos jogos eletrônicos como arte!

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