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Nintendo Shii? O uso de games por mulheres

Mulher jogando video games? Só se for o Shii, segundo muitos homens. O vídeo tem feito muito sucesso e arrancado risadas do público masculino, entretanto, a maioria das mulheres não vê graça alguma, especialmente no final – mas creio que esse é um bom ponto de partida para pensarmos sobre mulheres e games.

A primeira questão que sempre se levanta: “mas as mulheres (aqui entendidas como meninas, adolescentes e adultas)  jogam games?”.  Por exemplo,  pesquisa da ESA – (The Entertainment Software Association), realizada em 2008,  aponta que 40% dos jogadores americanos são mulheres. Dentre estas usuárias, as que têm mais de 18 anos representam uma porção significativa no mercado (33%), ou seja, essas mulheres são uma porcentagem de usuários maior do que os meninos menores de 18 anos (18%). A ESA-Canadá, em pesquisa em 2007, mostra que neste país as mulheres representam 42% dos usuários de games. Como apontam as pesquisas, o predomínio do uso dos games tem sido masculino.  Por outro lado, a participação das mulheres no uso de games tem crescido a cada dia.

É fato que muitas mulheres não jogam.  Na literatura sobre games, existem diversas explicações para isso.  Algumas delas estão relacionadas a fatores relativos as diferenças de gênero. Entre estas  diferenças poderiam haver fatores biológicos (as mulheres teriam menor habilidade visual comparada aos homens, o que dificultaria jogar, por exemplo); poderiam haver diferenças socialmente determinadas (os games são reforçados como objetos e brinquedos masculinos), entre outras diferenças .

Outra explicação encontrada na literatura é de que a forma como os games são construídos não interessam as mulheres.  Um dos motivos seria a forma como a figura feminina é representada nos games (de forma estereotipada, excessivamente sexualizada, muitas vezes o personagem mais frágil e  mais ineficaz) .

A literatura também parece acreditar que há uma correlação entre a falta de mulheres na indústria e o pouco interesse feminino por games. Segundo Denise Agosto, a maioria dos jogos é desenhada e vendida para homens; a autora cita diversas pesquisas que sugerem esse fato, dizendo que a boa parte da indústria dos games não estaria pensando nos interesses das mulheres.

Voltando ao início do texto, a imagem que me vem à mente sobre muitos game designers é a apresentada no Shii, ou seja: designers que montam jogos a partir da visão masculina da mulher. No caso, a visão masculina apresentada no vídeo humorístico (bastante machista, na minha opinião) é de que as mulheres só podem se interessar por um game onde haja coisas de casa, conversa, beleza e  sexo que agrade aos homens. Uma competição de sexo oral é uma imagem bastante masculina – geralmente o tema da competição sexual está mais ligada a homens do que mulheres.

Entretanto, apesar de ser uma minoria, temos mulheres que se interessam por games (e não é da forma apresentada no vídeo). Uma pequena parcela das mulheres joga os mesmos títulos  que os homens, com ação, violência e sangue, temas geralmente associados aos homens (no vídeo do Shii, são essas as atividades praticadas pelos homens – matar o outro com a espada, cair atirando em combate, dirigir veículos) .

Mas a grande maioria das mulheres se interessa por outros temas e títulos. É famoso o uso das mulheres do jogo The Sims,  por exemplo.  Outros exemplos freqüentes são Kingdom Hearts, e agora , o mais famoso entre eles, o Wii Fit. Não é minha intenção aqui relatar todos os jogos mais usados pelas mulheres no video game (remeto aqui para meu artigo apresentado no SBGames 2008). Quero destacar apenas que as mulheres fazem parte de um importante mercado: o de jogos casuais.

Segundo a Casual Games Association, em pesquisa realizada em 2007 as mulheres representam 51% da população que se utiliza estes tipos de jogos gratuitos, e representam 74% das mulheres que pagam para jogar. Segundo pesquisa da RealGames, de 2008, 81% dos jogadores de casual games são mulheres. Os jogos casuais, entretanto, muitas vezes são desvalorizados pelos gamers como jogo “menores” ou “sem graça”.

Para finalizar, gostaria de dizer que creio que ainda há muito preconceito com relação a mulheres que jogam video games. Seja por achar que elas tem menos habilidades, seja por achar que elas se interessam por jogos “sem graça”,  muitos homens ainda veem com lentes machistas e preconceituosas mulheres jogando.  Esse preconceito existe mesmo entre aqueles que serão futuros game designers. Na SBGames 2008, a audiência (basicamente constituída por universitários dos cursos de jogos digitais de diversos estados) me espantou quando apresentei o trabalho sobre mulheres e games. Estava explicando sobre as diferenças de gênero, que alguns teóricos acreditavam que as mulheres eram menos dotadas de visão tridimensional. A platéia masculina vibrou em coro: “É isso ai! Elas não sabem jogar!”, e na seqüência quando  disse que as mulheres tem mais habilidade verbal, muitos vaiaram e disseram (“Nheeee, nem é isso”), ou coisas do gênero.

Também no mesmo evento, representantes da Sony Entertainment dizem a platéia: “Games são para homens de 18 a 24 anos. Até tem mulher que joga Bejeweled no DS, mas isso é completamente irrelevante”. Entretanto, outras empresas (cito aqui em especial a Nintendo e a Ubisoft)  já estão atentos ao publico feminino, com títulos e temas que atendem mais ao interesse das mulheres.

Convido  pesquisadoras e jogadoras a participar da minha comunidade – Mulheres e Games Brasil – na rede LinkedIn, para debater o tema de mulheres e games. Homens interessados no tema também são bemvindos!


::  Ivelise Fortim é psicologa, especialista em Psicologia Junguiana e Mestre em Antropologia (Tudo na PUC-SP). Começou em Psicologia e Informática, mas agora se dedica ao estudo de Psicologia e Games, disciplina que leciona no curso de Jogos Digitais da PUC-SP. Adora cultura de massa nerd e geek, desde Star Wars, Matrix e Senhor dos Anéis até animês e mangás. Ainda se surpreende quando conta que tinha Super Game da CCE e um Nintendo NES e lhe perguntam se seu irmão a ensinou a jogar (hein? Só tenho uma irmã e eu!). Também se pergunta se é preconceito ou não oferecerem um DS cor de rosa sempre que vai olhar os preços de videogames. Atualmente desenvolve pesquisas sobre o uso de games por mulheres e mantém um grupo sobre o tema no LinkedIn.


10 Comentários »

  1. Julia diz:

    Oi Ivelise! Muito boa a postagem!
    Vi esse vídeo do Shii (recebi de um amigo jogador que acho engraçado) e achei extremamente ofensívo! O interessante é que nã houve muita repercussão negativa sobre esse vídeo. Garanto que se ele tivesse sido feito para ridicularizar negros ou homossexuais a coisa mudaria de figura.

    Existe muito preconceito ao se debater sobre os direitos femininos, inclusive entre as mulheres!!! Não é somente na área dos games que somos consideradas como um “público irrelevante”, mas em muitas outras e em mais uma batelada de instituições.

    O que é bastante contraditório especialmente quando se debatem as tais “habilidades biológicamente femininas” é que são impostas implicações sociais às mulheres mais do que lhes são oferecidas oportunidades de desenvolvimento. Essa vaia que você recebeu ao falar das habilidades femininas só reforça isso. Os rapazes deviam se lembrar que as meninas lideram o ranking das notas altas na escola, sem mencionar a lista dos jovens que atualmente conseguem terminar o colegial.

    Só para constar como dado para quem ler meu comentário: sou mulher, jogo videogame desde os 6 anos (comecei indo aos fliperamas com meu pai, na verdade!!!), adoro um jogo de pancaria com uma boa história, RPG e o único casual que jogo é realmente Bejeweled…que é viciante! xD hehehe

    Vou participar do seu grupo no LinkedIn com certeza!!!

    Um grande abraço e parabéns pela coragem!

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  2. Texto quente, esse. Em especial, localizo dois pontos que merecem a franca menção: primeiro, no quesito estereotipia – que é uma coisa que venho estudando ha um tempo; segundo, no quesito… bem, estereotipia de novo. Só que dessa vez, com relacao ao fator de representação mesmo. Vamos lá:

    acho que você está absolutamente certa quando fala que ainda há preconceito contra mulheres. O vídeo prova isso, mas acho que confundir o intuito de quem quer que tenha produzido o vídeo (intuito esse óbvio de brincar com o estereótipo e lidar com o estigma mesmo) com a postura adotada pelas empresas produtoras é perigoso – de repente até equivocado. Vale lembrar que, citando as pesquisas em estereótipo que denotam a existência de um ‘núcleo’ de verdade, os videogames podem não ser um ‘brinquedo masculino’ hoje, mas o foram por muito tempo. Apesar de ser uma questão bem menos estabelecida, pela própria idade do meio, diferente de carrinhos pra meninos e bonecas pra meninas, acredito que é natural – não correto, mas só natural – que ainda haja uma reação estereotipada a questões como essa. Perceba que eu nao discordo de sua pontuação – mas chamo atenção pra o fato de ser um *fenômeno* esperado.

    Mas daí, preciso discordar no segundo ponto – quando você fala que as representações são sempre de fragilidade e ineficiência. Essa questão é realmente BEM relativa. Se tomarmos como exemplo os MMORPGs, como World of Warcraft, a figura feminina não está EM NADA em posição inferior à masculina. Os poderes são os mesmos, variam de acordo com as mesmas coisas – é uma mera questão representacional. A coisa da ’sexualização’ é igual pra ambos os gêneros: os homens também são sexualizados, sempre fortes e imensos, denotando também a questão da estereotipia (isso pra tocar em UM ponto). Ok, UM exemplo. Nos jogos single player, bem: Lara Croft, Chun Li, Cammy, Seung Mina, Taki, Talim, Mature, Vice, Yuri Sakazaki, King, Athena, Blue Mary, e por aí vai. Inclusive essa é uma OUTRA questão que remete ao estudo dos estereótipos: nao interessa o quanto voce foge do padrão – se você recai sobre ele UMA vez, você apela pra o estigma.

    Por fim, sobre essa coisa de SBGames e vaia: é absurdo em qualquer nível – e só denota uma coisa: falta de educação.

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  3. Entro no coro pela natureza desprezível da representação das mulheres gamers no vídeo citado do Youtube. Já tinha assistido, e fiquei indignado com a proposta: o reforço depreciativo do papel das mulheres dentro da indústria dos videogames. É certamente mais uma tentativa da manutenção do status quo do império secular masculino/branco/heterossexual na indústria dos jogos eletrônicos (uma postura bolorenta se comparada aos avanços em outras indústrias culturais, como a música e o cinema). Diga-se de passagem, essa postura, é reafirmada e defendida pelos grandes representantes da indústria (como o evento da Sony, citado pela Ivelise) e mesmo o caso da nintendo merece algumas considerações. Desde o console Famicom (Nintendo Family Computer) que essa companhia vem construindo um tipo de público específico para os seus produtos: a família. Ou seja, os jogos podem ser consumidos (em pé de igualdade) pelo menino, pela menina, pelo papai, pela mamãe, pela vovó e pelo vovô. A posposta da Nintendo não é, e nunca foi, uma defesa ideológica das mulheres como jogadoras. Mesmo no novo “jegue enfeitado” da indústria, os casual games, a proposta da Nintendo ainda é construir ambientes de entretenimento familiar.

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  4. [...] das mulheres não vê graça alguma, especialmente no final – mas creio … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

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  5. Matheus Pitillo diz:

    Opa, e aí Ivelise, tudo bom?
    Apenas deixando aqui um comentário rápido, pra elogiar o seu artigo e também falar um pouco da minha opinião sobre o assunto. Como já havia te falado, em relação ao vídeo Shii, eu sinceramente não acho que vi ele com uma visão maxista. Eu enxergo alguma certa graça no vídeo, mas não ao ponto de comparar às mulheres, ou achar que as coisas seriam daquela forma. Mas acho que o fato de criarem um vídeo, baseado em um pensamento tão fechado, que se tornou tão clichê pelos maxistas, tem uma certa graça de fundo, criticando justamente o contrário.

    Acho que me enrolei pra explicar o que eu penso. Hahaha. A piada do vídeo, está justamente na idiotice de quem criou. Foi assim que eu encarei o vídeo. E quanto aos dados da sua pesquisa, realmente me surpreendi em alguns pontos. Talvez minha cabeça ainda está um pouco fechada, hahaha. Mas gostei sim do texto. Parabéns! E com certeza tudo isso vai crescer e ter mais destaque, mais e mais.

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  6. Eu tinha visto essa pesquisa que mostra que as mulheres acima de 18 anos são mais representativas do que rapazes de menos de 18 anos. No World of Warcraft, que um dos comentaristas anteriores citou, se não me engano, a participação feminina chega a uns 30% (não lembro onde li isso). Se alguém acha que 30% não é uma participação relevante, é pq realmente não entende de negócios. Quem parar de falar só pra homens só vai ver seu share crescer, como tem acontecido com a Nintendo. O machismo na área de games só reflete o machismo “lá fora”, e, como este, deve acabar. Bem, o comentário ficou todo picado, mas acho que deu pra entender. Nosso papel, como geração “pioneira” de mulheres que jogam ou se interessam pelo tema, é derrubar isso.

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  7. Gustavo Nogueira diz:

    Olá Ivelise,

    bom texto. O que venho sempre argumentando é que, não é a indústria dos games que ainda é machista. A sociedade como um todo ainda é muito machista, apesar dos inúmeros avanços existentes nas conquistas femininas. Citando o Shii, por exemplo: Se as pessoas se sentissem ofendidas com o vídeo ele não seria tão popular. A idéia é mais ou menos essa. De qualquer forma, declarações como a do representante da Sony só nos mostram o quanto as pessoas ainda não estão abertas ao “novo”, mesmo se tratando dos videogames, que também são alvos de preconceitos de diversas esferas…

    Abraços

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  8. Eu de novo. Offtopic, mas não totalmente: Ivelise, por favor, fala comigo no email alessandrapicoli@gmail.com. Eu tenho umas perguntas sobre pós graduação que eu acho que você pode me ajudar. Obrigada!

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  9. Ivelise diz:

    Olá a todos,

    Em primeiro lugar gostaria de agradecer os comentarios! Desculpem também a demora em responder. Tem coisas que gostaria de comentar:

    1) Alguns dados eu coloquei de forma superficial apenas para o post. Por exemplo, sobre a questão da fragilidade das personagens feminas. Esses são dados que algumas pesquisas mais antigas apontam, acho que isso não ficou claro no meu post. Concordo sim que em RPGs on line os personagens tem as mesmas caracteristicas, independente do sexo. Juntando com o comentario que eu ia fazer para a Alessandra, algumas autoras acham inclusive que o verdadeiro interesse de mulheres por games é RPG multiplayer. Na pesquisa da ESA que citei, se não estou enganada em multiplayers a proporção de mulheres é quase 50/50. Tem uma autora chamada Krotoski ( http://mypages.surrey.ac.uk/psp1ak/Women%20and%20Massively%20Multiplayer%20Online%20Role%20Playing%20Games%20PCA-ACA.pdf) que trabalha só com essa ideia.

    2) Entendo que a Nintendo faz games para a familia, e isto inclui as mulheres. Hoje mesmo vi uma propaganda do DS com a mão de uma mulher ( também tem a mão de um idoso, por ex.) .Não vou entrar no merito se eles tem uma ideologia de incluir a mulher ou não, mas creio que eles estão trabalhando em games para non gamers- e as mulheres estão incluidas nisso.

    3) Bom, quando falo do Shii, minha ideia é fazer um paralelo entre a situação de muitos designers, e nã o confundir as coisas. Creio que o video é uma metafora para designar como muitas empresas, designers e publico comum vê o uso das mulheres.

    Acho que por enquanto é isso! :)

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  10. [...] poderiam haver diferenças socialmente determinadas (os games são … Veja o post completo clicando aqui. Post indexado de: [...]

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