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Ivy. Seong Mi-Na. Tira. Jill. Kasumi. Lara. O que esses nomes têm em comum? Aos mais desavisados, trata-se de personagens femininos de games lançados nos últimos anos. Mas não personagens quaisquer. Todas elas, sem exceção, “heroínas” (ou anti) que trazem em seu design, em suas formas, um forte apelo erótico. Algumas delas, inclusive, foram posteriormente “encarnadas” em atrizes reais (não sem despertar protestos dos fãs mais xiitas), como Lara Croft, vivida no cinema por Angelina Jolie. Como explicar a crescente erotização das personagens femininas dos games? Estratégia de marketing junto ao seu principal público consumidor? Influência do mais puro fetiche japonês em representar suas virtual idols com seios fartos e trajes minúsculos? São questões sobre as quais tenho pensado ultimamente, que começaram a martelar em minha cabeça depois da recente leitura de dois ótimos textos de Beatriz Jaguaribe, professora do programa de pós-graduação da ECO/UFRJ, ambos publicados em livro [1].
O fetiche em torno da figura feminina transformada em personagem pictórico não se inaugura com o digital [2]. Os quadrinhos e o cinema de animação que o digam: Betty Boop, Jessica Rabbit, Mulher Maravilha e as mil e uma heroínas (e anti-heroínas) Marvel/DC, e por aí vai. Sem falar nos hentais japoneses, eróticos por natureza. Todavia, nos games, este fenômeno – pelo menos com a intensidade de hoje – é relativamente novo. O que faz todo sentido, se pensarmos que as capacidades gráficas dos consoles e computadores pessoais, suficientes para representar os personagens de seus games com certo grau de “realismo”, são ainda recentes (lembro que os primeiros jogos comerciais a utilizarem tecnologia 3D, uma das grandes responsáveis pelo realismo gráfico nos games, surgiram há não mais de 20 anos). De fato (como já abordei em alguns de meus papers, disponíveis aqui no RS), o mercado mainstream de games tem buscado cada vez mais alcançar o realismo gráfico em personagens, objetos e cenários de seus jogos, sobretudo a partir da última geração de consoles. Com sua crescente capacidade mimética, os games (i.e. seus desenvolvedores e produtores) logo perceberam que seria desperdício não explorar o corpo feminino em seus jogos, o que tem lhes rendido, no mínimo, grande propaganda viral. Não à toa, quase todo lançamento que apresenta alguma sexy beauty é acompanhado de grande buzz na mídia especializada.
Outro fato que atesta a crescente erotização deste mercado está na forte presença de modelos de corpos esbeltos e trajes mínimos nas principais feiras e exposições de games, como a E3 e a TGS, muitas vestidas com cosplays de personagens sensuais, como as que referi no início do texto. Cenário que aponta para novos questionamentos: reiteração do estereótipo gamer – garoto nerd, anti-social, com dificuldades no contato com pessoas do sexo oposto, que acaba concentrando suas energias afetivas/sexuais em personagens virtuais? Banalização da figura feminina, já tão sensualmente explorada pela publicidade e pela mídia de massa? Perguntas que certamente renderiam bons artigos sobre o tema.
Não quero aqui apresentar uma posição moralista diante deste cenário – longe disso. Essas questões apareceram em meio à tentativa incessante de compreender as inúmeras transformações pelas quais os games – e isso inclui suas tecnologias, seus modos de operação, suas narrativas, seus públicos – têm passado nos últimos anos. Certamente – e acho que isso já é senso comum – não é mais possível abordar os games apenas como algo puramente naïf. Há muitos interesses “adultos”, mercadológicos em questão.
[2] Refiro-me aqui à produção pictórica do século XX.
Ô Emamnoel!
Crescente erotização? ahahaha…
acho que tá te deixando levar pelos argumentos das pesquisadoras de gênero.
Queremos belas mulheres, os nerds, os turcos e os outros.
pessoalmente, acho que usamos pouco erotismo nos games. E, juro, não estou brincando.
abraço pro amigo,
marsal
Achei sensacional esse texto, faço questão de comentar, já que trata muito bem de um fenômeno realmente interessante e mundializado. É relevante para a compreensão desse novo mercado, não só dos games, mas também em qualquer segmento midiático.
Parabéns Emmanoel!
Emmanoel,
Tb gostei do seu post e faço questão de comentar. Acho que o apelo ao erotismo pode ser percebido em outros formatos anteriores ao game. André Bazin publicou um excelente ensaio em 1930 e poucos – “À Margem de o Erostismo no Cinema” – em que ele percebe esta questão e discute modos que a referência ao erotismo pode aguçar a mente do espectador. Ou será que a escolha da Angelina Jolie para fazer a Lara Croft, no cinema, se deu por outros apectos senão seus dotes físicos? E a roupa colante e molhada que ela usa no filme?Pq não colocaram uma farda na heroína? Da mesma forma que os quadrinhos e o cinema fizeram, chegou as vez dos games se armarem dos efeitos inerentes à repsentção do erotismo, na tela. As novas ferramentas de modelagem permitem que os game designers elaborem personagens com dotes mais generosos, em seus jogos. Isso pode ser uma forma de “cativar” um jogador, ao lado de outros processos como interatividade, agência, etc…
Gostei do texto, mas tal qual o marsal ali em cima discorto quanto a “crescente erotização” no mundo dos games. A erotização é, ao meu ver, um fenomeno comum a basicamente todos os games e que não tenho visto crescendo além do que ela sempre foi no mundo dos games, além de nem sempre girar em torno exclusivamente da figura feminina. É apenas uma questão de avaliar o nicho ao qual aquele tipo de jogo se adequou. Dificilmente se encontra erotização num jogo de tiro (alguém viu alguma em Bioshock e Crysis, por exemplo?).
A coisa pode até muda quando se trabalha com jogos de luta, por exemplo, onde a pouca atratividade em outro elementos além do estético, afinal as mecânicas desses jogos são sempre iguais. E quando se apela pro estético normalmente se valoriza o corpo dos personagens, mulheres sensuais, homens fortes ou esbeltos, mas em geral bonitos, montros estranhos, ou então efeitos vizuais (magias, poderes, explosões e etc), pois é isso que chama a atenção desse público alvo em particular. Mas sempre existem os jogos onde essa erotização e não valorização do corpo existem e são muitos por sinal.
É só jogar.
Abraços
correção:
“A erotização é, ao meu ver, um fenomeno comum a basicamente todos as mídias” e não “A erotização é, ao meu ver, um fenomeno comum a basicamente todos os games”
@ Marsal e Johny,
Discordo diretamente de vocês quanto à afirmação de que o erotismo sempre esteve presente nos games (pelo menos com a intensidade de hoje, como coloquei no post). Não me lembro de ver Pauline ou Princesa Peach com os mesmos dotes físicos de uma Ivy (para infelicidade de Mario, rs). Como coloquei no texto e o Adolfo reafirmou, as capacidades gráficas recentes dos computadores e consoles têm permitido esse trabalho de modelagem na direção de um realismo gráfico nunca antes visto, e as modelos femininas não ficariam de fora desse mercado (prova disso é o concurso Digital Beauties que ocorre de tempos em tempos, incluindo a venda de calendários no melhor estilo Michelin). Outra coisa, que também deixei clara no texto: não é meu objetivo concordar ou discordar dessa erotização – isso não foi colocado em pauta – e sim buscar compreendâ-la, no contexto dos games.
@ Johny,
Há de se convir que a erotização se dá sim, no mais das vezes, em torno da figura feminina, e isso não é exclusivo dos games, mas também está presente no cinema, na publicidade, e assim por diante. E não são poucos os estudos já realizados em torno desse tema. Quanto à outra questão que você coloca: não acho que essa escolha seja por falta de conteúdo narrativo. Se pensarmos em termos diegéticos, é bastante contraditório ver lutadoras vestindo roupas que pouco a protegeriam numa batalha. Nesse ponto, o visual, o estético, vai totalmente de encontro à narrativa, priorizando (e admitindo claramente) as intenções erotizantes do jogo com relação ao personagem.
Oi,
Como sou a primeir amulher a comentar- rs – claro que acho o post interessante, além de sempre pensar como elas fazem pra manter a roupa no lugar- será que é com cola pritt? Essas roupas são inviaveis pras cosplayers, coitadas.
Bom, falando sobre coisas relevantes, eu concordo com a crescente erotização. Eu estava vendo o jogo Estrada real, e reparei que o enquadramento de camera é na altura do bumbum da protagonista ( que remete a Lara Croft, de certa forma) .Nem preciso dizer que a protagonista de Estrada Real tb tem um corpão daqueles. Fico pensando que antes o enquadramento seria na altura da cabeça, ou coisa assim ( acho que no jogo deles da pra mudar, mas esse é o enquadramento padrão).
E voltando a questão de genero, vejo isso como motivação de vendas para o público gamer predominantemente masculino. Não me lembro de ver jogos onde o protagonista masculino aparece de fio dental ( o fato de eu não me lembrar não quer dizer que não exiusta! rs) Se alguem lembrar de um , me avise.
Parabens pelo post.
Engraçado como sempre que esse papo de erotização vem à tona nos videogames tudo é posto no mesmo prisma representacional das outras medias. Ou seja, mulheres gostosas são postas em cena, pois queremos “ver” detalhes corporais que estavam escondidos antes: peitos, bundas e o que mais o nível xxx do jogo mandar.
Só que videogame não é só ver, e sim, também incorporar. Se existe uma tendência ao aumento de protagonistas femininas com dotes corporais exagerados e roupas mínimas talvez seja por que queremos nos sentir no lugar delas, e não apenas consumi-las à distância. Ou até mesmo as duas formas de interpretação.
Vejam bem que as criaturas parrudas que o emmanoel citou, não são submissas, muito pelo contrário, o exagero corpóreo delas reflete uma quantidade transbordante de poder para com o universo ficcional dos jogos em questão. Nesse sentido, a protagonista de Bayonetta (Platinum Games, 2009) não será uma peça de manipulação numa “tara” passiva na mão dos jogadores
Ela e eles serão um só no gameplay, sendo gostosa/os e derrubando os antagonistas com direito a muitos enquadramentos panchira para compor as cenas.
Aqui temos um tipo diferente de erotização, talvez seja isso que o emmanoel queira colocar em discussão.
Só pra lembrar que nem todos os videogames antigamente eram inocentes:
http://www.cracked.com/article_17206_10-most-perverted-old-school-video-games.html
@ Paolo,
Não era bem a esse tipo de erotização – identificação jogador/personagem – que me referia. E, pessoalmente, não acho que o ponto aqui seja esse desejo de estar no lugar delas. O que me chama a atenção é uma erotização sobre personagens que – falando em termos de narrativa e diegese – normalmente não a demandariam. Esta semana estava folheando a última edição da revista EGW (antiga EGM Brasil) e deparei com uma propaganda, página inteira, do jogo Cabal Online. A imagem principal da propaganda é uma personagem que mais parece uma garota da Playboy que qualquer outra coisa (tecendo nenhuma relação direta com a história do jogo). É a isto que me refiro: uma erotização fora de contexto.
@ Yara,
Sei que jogos eróticos existem há muito tempo, eu mesmo me lembro de vários da era Atari. A questão é que naqueles jogos, e em todos estes jogos old-school do link, o erotismo/perversão faz parte do contexto. No caso atual: estariam os games seguindo uma tendência já presente nas outras mídias (como apontou o Adolfo), já que agora isto é graficamente possível? Era tudo uma questão de tempo e desenvolvimento tecnológico?
[...] Digital Beauties é mais um dos interessantes artigos do Realidade Sintética, um blog sobre o que acotece no mundo dos videogames e como o assunto se repercute no meio acadêmico e na pesquisa científica. [...]